Como a calculadora faz a conta
O pivô gera dinheiro de duas formas: sobe a produtividade da safra que já existia (soja e milho de verão ou de 2ª safra) e abre safras que não existiriam sem água (feijão de inverno, trigo no Cerrado, uma terceira safra). Ele custa de três formas: o investimento (equipamento, bombeamento, adutora, rede elétrica, obras e projeto), a energia por milímetro aplicado, e a manutenção e a mão de obra. A calculadora soma o benefício de cada safra, desconta energia, manutenção e mão de obra, e compara o que sobra por ano com o investimento.
O que costuma decidir a conta é o número de safras. O ganho de produtividade da soja e do milho, sozinho, em geral não paga o pivô; é a safra adicional que fecha a conta. A ANA (2023) mediu que os pivôs de lavoura temporária fazem em média 2,1 safras por ano, e que 18,2% da área equipada por pivôs faz safra tripla. Resende e Albuquerque (2002) falam em duas a três safras por ano com irrigação. A tabela "Investimento e número de safras", mais abaixo, mostra isso com os seus números.
A calculadora põe o que entra e o que sai ano a ano e resume em cinco números:
- VPL: quanto sobra no fim, em reais de hoje, depois de descontar o que o dinheiro renderia em outra aplicação. Acima de zero, o pivô compensa.
- TIR: quanto o investimento rende por ano. Se for maior que a taxa de desconto, o investimento pode valer a pena.
- Retorno: em quantos anos o dinheiro investido volta, sem e com o desconto.
- Custo anual do capital: o investimento espalhado em parcelas iguais ao longo dos anos, com o desconto. Mostra quanto cada hectare precisa render por ano só para pagar o pivô.
- Cobertura: o benefício das safras dividido pelo custo do capital mais o custo de operação. Se for 1 ou mais, o pivô paga o capital e a operação.
A conta usa preços de hoje, sem inflação e sem imposto de renda. Não entram financiamento, seguro, arrendamento, reposição de equipamento antes do fim da vida útil, nem custo de outorga e licenciamento. A mão de obra de Alves (2021) é por safra e foi tratada como anual. As contas abaixo usam os números do formulário.
Como a energia entra na conta
Há dois caminhos para o consumo por milímetro. O primeiro é a física: levantar a água de 1 mm sobre 1 hectare (10 m³) por 1 metro gasta 0,02724 kWh, então o consumo é 0,02724 vezes a altura manométrica, dividido pelo rendimento do conjunto motobomba. O segundo é digitar o consumo da sua fatura. Se você digitar, o seu número vale no lugar da fórmula.
A fórmula dá menos que o medido nos três pivôs estudados por Lima et al. (2009): 4,19, 7,32 e 6,58 kWh/mm/ha contra 5,37, 12,40 e 8,30 medidos. Os pivôs desse estudo tinham baixa eficiência energética (8,7% e 21,1% em dois deles). Por isso a calculadora mostra o efeito do consumo medido na tabela de cenários.
O desconto da tarifa vale só para 8h30 por dia. Se o pivô trabalha mais horas, a calculadora supõe consumo igual em todas as horas e deixa o resto do consumo na tarifa cheia: com 17 horas por dia, metade do consumo cai na janela com desconto.
Desconto na conta de luz para irrigar
O desconto para a classe rural em irrigação e aquicultura está no art. 25 da Lei 10.438/2002, que a Lei 15.235/2025 reescreveu. Ele vale para o consumo "em um período diário de 8 (oito) horas e 30 (trinta) minutos de duração, em escala de horário estabelecida com o concessionário ou permissionário". Até maio de 2025, o desconto valia entre 21h30 e 6h. A Portaria Normativa MME nº 137, de 8 de junho de 2026 (publicada no DOU em 09/06/2026), mantém as 8h30 por dia, que podem ser contínuas ou divididas em até três faixas, em múltiplos de 30 minutos, dentro da janela de 21h30 até as 17h do dia seguinte. O desconto não pode ser concedido entre 17h e 21h30, o produtor tem preferência na escolha e pode ter escalas diferentes ao longo do ano. As fontes que consultamos não informam a data de início da portaria.
Os percentuais por região e grupo são os do art. 186 da REN ANEEL 1.000/2021, que lemos pela transcrição da Nota Técnica CNA nº 15/2023 (não conseguimos abrir o texto da ANEEL):
| Região | Grupo B (baixa tensão) | Grupo A (alta tensão) |
|---|---|---|
| Nordeste e municípios de MG do Polígono da Seca e do Vale do Jequitinhonha | 73% | 90% |
| Norte, Centro-Oeste e demais municípios de MG | 67% | 80% |
| Demais regiões (Sul e Sudeste, segundo o Canal Rural de 2019) | 60% | 70% |
Os mesmos 73%, 67% e 60% aparecem no Canal Rural de 04/04/2019. As fontes sobre a Lei 15.235/2025 e a Portaria 137/2026 não trazem percentuais novos, e o portal parte do princípio de que eles não mudaram. Confirme o seu com a distribuidora. A conta usa só o desconto de irrigação, não os descontos gerais da classe rural, que o Canal Rural (2019) dizia que seriam zerados em 2023. O Grupo A paga também demanda contratada e outras tarifas; a calculadora tem só o campo "Demanda contratada e taxas fixas", sem tarifa horária de ponta e fora de ponta.
Números de referência por cultura
Ao escolher a cultura de uma safra, a calculadora preenche a linha com os números abaixo, e o preço é sempre o do Cepea em culturas.js. Soja, milho e feijão vêm de um estudo de caso em Vera-MT; trigo e café, de experimentos; algodão, cana e tomate vêm só com o preço. Onde não há fonte, o custo fica em zero e a calculadora avisa.
| Cultura | Lâmina | Produtividade, sequeiro → irrigada | Fonte e observação |
|---|---|---|---|
| Soja (1ª safra) | 200 mm bruta (180 mm líquida, com eficiência de 90%); média de 244,3 mm (de 132,9 a 416,8) em MS | 65 → 80 sc/ha (Vera-MT); 70 sc/ha irrigada, estimada em MS | Alves (2021, Tabelas 6 e 10); Richetti et al., via Revista Cultivar (2015). A matéria de 2015 diz que a energia do pivô é 10,2% do custo total da soja irrigada. |
| Milho (2ª safra) | 200 mm bruta; 418,0 e 385,6 mm em dois pivôs de Várzea da Palma-MG (ciclo completo); 450 mm no ciclo em Kaneko et al. | 150 → 180 sc/ha (MT); meta de 160 sc/ha em Kaneko et al. | Alves (2021); Albuquerque et al. (2010); Kaneko et al. (2012). Kaneko não informa o sequeiro do caso. |
| Feijão (3ª safra) | 422 mm bruta (380 mm líquida) | 0 → 50 sc/ha: só existe irrigado | Alves (2021, Tabelas 6 e 10). |
| Trigo (inverno, Cerrado) | De 331 a 497 mm no ciclo, conforme o critério de irrigação; a calculadora usa o meio, 414 mm | Cerca de 7 t/ha (117 sc/ha) na cultivar BRS 394; sem sequeiro no inverno do Cerrado | Embrapa Cerrados, via Revista Cultivar (2024). Experimento com aspersão convencional, não pivô; a produtividade em sacas é conversão da matéria. |
| Café (perene) | De 947 mm (estresse adequado) a 1.403 mm (irrigado o ano todo) por ano; a calculadora usa 1.100 mm, o tratamento intermediário | 14 sc/ha em sequeiro → até 82 irrigado (o resumo do mesmo texto fala em cerca de 70; a calculadora usa 70) | Guerra et al., Embrapa Cerrados (2005). Plantas de 3 a 5 anos em 8 ha de pivô experimental: não projete para lavoura adulta sem cuidado. |
| Algodão, cana-de-açúcar, tomate | Sem fonte localizada | Sem fonte localizada | A ANA (2023) só registra que existem sob pivô: algodão em safra dupla longa na Bahia e cana como cultura semiperene (8,3% da área equipada). Digite os seus números. |
Arroz e laranja ficam fora: não localizamos fonte de lavoura sob pivô para eles. O arroz irrigado costuma usar outro método de irrigação, com outra conta.
O resultado depende do número de safras por ano, do consumo de energia por milímetro e do preço do kWh na janela com desconto. Os exemplos são de casos publicados e de premissas; troque pelos números da sua fazenda e da sua fatura. A regra do desconto de energia para irrigação mudou em 2025 e 2026; confirme com sua distribuidora.
O investimento extra (zero), a manutenção de 2% do investimento por ano, as 17 horas de funcionamento por dia, o custo por unidade do milho e do feijão, o custo adicional das três safras, a cobrança pela água (zero) e a demanda contratada (zero) são premissas do portal. Não localizamos fonte atual para eles. O custo da lavoura de feijão (R$ 7.000 por hectare) é o número mais sensível do exemplo: troque pelo custo real da sua. Resultados de experimentos (café e trigo da Embrapa Cerrados) costumam superar o que a lavoura comercial entrega; use a produtividade da sua fazenda.
Perguntas frequentes
O pivô se paga só com o ganho de produtividade da soja?
No exemplo, não. Subir de 65 para 80 sc/ha rende, depois do custo adicional, menos do que o pivô custa: a energia, a manutenção e a mão de obra de uma só safra tomam mais de R$ 1.000 por hectare por ano, e o capital de um pivô de R$ 22 mil por hectare custa R$ 3.274 por hectare por ano em termos equivalentes (20 anos a 13,75%). O que fecha a conta é a safra adicional, e a ANA mostra que os pivôs de lavoura temporária fazem em média 2,1 safras por ano.
Qual é o desconto na conta de luz para irrigar hoje?
O desconto vale para o consumo em 8 horas e 30 minutos por dia, em escala combinada com a distribuidora (Lei 15.235/2025, art. 25). Pela Portaria MME 137/2026, essas horas podem ser contínuas ou em até três faixas, entre 21h30 e 17h do dia seguinte, sem poder cair entre 17h e 21h30. Os percentuais que lemos são de 60% a 73% no Grupo B e de 70% a 90% no Grupo A, conforme a região (REN 1.000/2021, art. 186, via CNA). Confirme o seu percentual com a distribuidora.
Quantos kWh gasta um pivô por milímetro?
Pela física, 0,02724 vezes a altura manométrica, dividido pelo rendimento do conjunto: de cerca de 4,2 a 7,8 kWh/mm/ha com as alturas e rendimentos que lemos (115 a 169 mca; 0,59 a 0,75). Os três pivôs medidos por Lima et al. (2009) gastaram de 5,37 a 12,40. Se você tem a fatura e a lâmina aplicada, digite o seu consumo; é o dado mais seguro.
Dá para financiar?
O Plano Safra 2026/27, anunciado em 30/06/2026, traz a linha Proirriga a 11,5% ao ano (Agrolink). A página que lemos não detalha prazo nem carência. Para ver o efeito, troque a taxa de desconto por 11,5%; a calculadora também mostra o VPL com essa taxa, no fim de "E se os números mudarem?".
Trabalhar mais horas por dia melhora a conta?
Só o desconto de 8h30 por dia vale. Se o pivô funciona 21 horas por dia, só 40,5% do consumo fica na janela com desconto. Quando o manejo permite, concentrar a irrigação nas horas da janela com desconto reduz a conta de energia; a tabela "Horas de funcionamento por dia" mostra o efeito nos seus números.
Pivô ou gotejamento?
Para um caso, Alves (2021) comparou pivô e gotejamento subsuperficial em Vera-MT e encontrou TIR de 31% para o pivô (R$ 20.000/ha) e de 6,32% para o gotejamento (R$ 35.000/ha). É um estudo de caso, não regra; esta calculadora faz só pivô central.
Fontes
- Alves, N. R. A. Análise econômica da integração de sistemas de irrigação por pivô central e gotejamento subsuperficial. Relatório final de graduação em Engenharia Agrícola e Ambiental, UFV, 2021 (investimento, lâminas, energia, mão de obra, produtividades, vida útil e TMA). locus.ufv.br
- Compre Rural. Quanto custa irrigar uma propriedade? Veja preços, cuidados e o passo a passo para instalar um pivô. 08/06/2026 (R$ 22 mil por hectare, segundo o CEO da Lindsay no Brasil). comprerural.com
- Lima, A. C.; Guimarães Jr., S. C.; Fietz, C. R.; Camacho, J. R. Avaliação e análise da eficiência energética na irrigação em sistemas pivô central. Revista Brasileira de Engenharia Agrícola e Ambiental, v. 13, n. 4, p. 499-505, 2009. alice.cnptia.embrapa.br
- Albuquerque, P. E. P.; Coutinho, A. C.; Gonçalves, P. P.; Agostinho, E. M. Uso eficiente da água de irrigação e da energia elétrica em cultura de milho sob pivô central num plantio comercial em Várzea da Palma, MG. XXVIII Congresso Nacional de Milho e Sorgo, 2010. alice.cnptia.embrapa.br
- Kaneko, F. H.; Hernandez, F. B. T.; Shimada, M. M.; Ferreira, J. P. Estudo de caso: análise econômica da fertirrigação e adubação tratorizada em pivôs centrais considerando a cultura do milho. Revista Agrarian, v. 5, n. 161, 2012. ojs.ufgd.edu.br
- Richetti, A.; Flumignan, D. L.; Almeida, A. C. S. (Embrapa Agropecuária Oeste; UFGD), via Revista Cultivar. Estudo aponta viabilidade de irrigar soja no sul de MS. 17/11/2015. revistacultivar.com.br
- Guerra, A. F.; Rocha, O. C.; Rodrigues, G. C. et al. (Embrapa Cerrados). Irrigação do cafeeiro no Cerrado: estratégia de manejo de água para uniformização de florada. Comunicado Técnico 122, 2005. infoteca.cnptia.embrapa.br
- Revista Cultivar. Pesquisa indica momento e quantidade de água ideais para irrigação do trigo no Cerrado (Embrapa Cerrados). 16/07/2024. revistacultivar.com.br
- Resende, M.; Albuquerque, P. E. P. (Embrapa Milho e Sorgo). Métodos e estratégias de manejo de irrigação. Circular Técnica 19, 2002. infoteca.cnptia.embrapa.br
- Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA). Levantamento da agricultura irrigada por pivôs centrais no Brasil (1985-2022). Boletim do SNIRH nº 4, novembro de 2023. metadados.snirh.gov.br
- Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Nota Técnica nº 15/2023: alteração no desconto da tarifa de energia elétrica. 11/10/2023 (percentuais do art. 186 da REN ANEEL 1.000/2021). cna-portal-2022new.dotgroup.com.br
- Brasil. Lei nº 15.235, de 8 de outubro de 2025 (texto atualizado), art. 1º, que dá nova redação ao art. 25 da Lei 10.438/2002. www2.camara.leg.br
- CNA Brasil. Sistema Famato informa novas regras para desconto na tarifa de energia elétrica para irrigação e aquicultura (Portaria Normativa MME nº 137/2026). 11/06/2026. cnabrasil.org.br
- Agência Infra. Desconto de energia para irrigação (portaria assinada em 08/06/2026, publicada no DOU em 09/06/2026). agenciainfra.com
- Câmara dos Deputados. Governo e produtores rurais apoiam mudanças nas regras de desconto de energia para irrigação. 08/07/2025. camara.leg.br
- Canal Rural. Energia: governo retoma descontos cumulativos para irrigantes e aquicultores. 04/04/2019. canalrural.com.br
- Equatorial Goiás Distribuidora de Energia. Resolução Homologatória ANEEL nº 3.544, de 21/10/2025 (tarifa B2 rural convencional: TUSD R$ 567,67 + TE R$ 324,14 = R$ 891,81 por MWh, de 22/10/2025 a 21/10/2026, antes de tributos e bandeiras). goias.gov.br
- Atlas Público (notícia do Banco Central). Copom reduz Selic para 13,75% ao ano em decisão unânime. 16/09/2026. atlaspublico.com.br
- Agrolink. Plano Safra reduz juros e libera R$ 525,1 bilhões para o agro (Proirriga a 11,5% ao ano). 30/06/2026. agrolink.com.br
- Gimenez, M. A.; Reis, J. C.; Kamoi, M. Y. T.; Michetti, M. Ferramenta eletrônica como instrumento de avaliação da viabilidade econômico-financeira de sistemas de produção agropecuários. Embrapa Agrossilvipastoril, cerca de 2016 (definições de TMA, TIR, VPL e payback). alice.cnptia.embrapa.br
- Preços de exemplo das culturas: Cepea/Esalq (16/10/2026). Detalhes e links de cada número em Dados de referência das culturas, do Conta da Safra.