Como a calculadora faz a conta
A ureia, ao se dissolver com a umidade, é quebrada pela urease (uma enzima do solo, que existe em maior quantidade na palha) e vira amônio. Em volta do grânulo o pH sobe, e parte do amônio sai para o ar como amônia. A perda é grande quando a ureia fica na superfície, sobre palha, com calor e sem uma chuva que a leve para dentro do solo, e se concentra nos primeiros 4 a 5 dias. A calculadora não inventa uma perda: parte da faixa medida para a cultura (a menor e a maior perda da ureia em superfície nas fontes) e põe a estimativa dentro dela por um índice das condições, de 0 a 1: a temperatura, a palhada, a umidade do solo e o pH somam pontos, e o total é multiplicado por um fator chuva. Índice 0 dá a menor perda medida; índice 1, a maior. Daí saem os quilos de N perdidos, os reais pelo preço do kg de N da ureia e o equivalente em produto. A comparação usa o custo do kg de N aproveitado (o N comprado que não foi para o ar) e o preço de empate de cada categoria de fonte, com o custo que você digita.
A perda pode passar do teto da faixa: outros trabalhos, citados pelas fontes abertas, mediram de 50% a 94% sobre palha, mas os originais não foram abertos. Em tempo quente, seco e com muita palha, a calculadora pode subestimar a perda. O "equivalente em sacas" é o custo da perda dividido pelo preço do produto, e não sacas que deixaram de ser colhidas: nos ensaios lidos, a fonte de N nem sempre mudou a produção. Só a volatilização entra na conta: lixiviação, desnitrificação, o enxofre do sulfato e o efeito de cada fonte no pH do solo ficam de fora. A calculadora mostra só a categoria técnica de cada fonte, nunca marca nem produto comercial.
O que é premissa nesta calculadora
As fontes dizem a direção e a importância de cada fator, mas não dão um número para cada um. Estes valores são do Conta da Safra e todos podem ser trocados no formulário, no grupo "Premissas do portal":
- Os pesos do índice das condições: temperatura 0,35, palhada 0,25, umidade do solo 0,25 e pH 0,15. A temperatura leva o maior peso porque foi o fator de maior peso na regressão do Paraná (Viero et al., 2014); o pH, o menor, porque só aparece citado, sem número. Também são premissa os valores de cada condição (ameno 0,5; solo seco 0,3) e os cortes de 18 °C, de 25 °C e do pH.
- A chuva mínima de 15 mm e o fator chuva (0,2 com chuva em até 2 dias; 0,6 de 3 a 7 dias; 1 sem chuva em 7 dias): as fontes abertas não dão a lâmina mínima em milímetros.
- As faixas emprestadas de outra cultura: algodão, feijão e arroz usam a do milho no verão ou a do trigo no inverno; os citros, a do café; o arroz irrigado, a do milho no verão, com a inundação logo depois tratada como chuva em até 2 dias. Nenhuma fonte aberta mediu a perda nelas.
- O fator da incorporação (15%), a redução pelo inibidor de urease (50% com chuva em 7 dias e 30% sem) e o ponto do sulfato de amônio (1%), todos dentro do que as fontes mediram.
- Os preços: a ureia a R$ 3.000/t, o custo do kg de N das outras fontes e o custo da incorporação. Nenhum preço público de 2026 foi aberto: digite sempre os seus. O preço do produto de exemplo é o de referência do portal (Cepea e Consecana).
- Os cortes do risco (baixo abaixo de 0,3, médio até 0,6, alto acima) e o aviso de dose acima de 100 kg de N/ha numa aplicação.
Faixa de perda da ureia em superfície por cultura
| Cultura | Perda | Fonte ou premissa |
|---|
Outras fontes de N, nos mesmos ensaios: o nitrato de amônio perdeu de 0% a 0,7%, e o sulfato de amônio, de 0,5% a 1,2% (Viero et al., 2014; Faria et al., 2013; EPAMIG, 2018). A soja fica de fora porque não recebe N em cobertura, e o tomate porque o N vai em boa parte por fertirrigação, sem medição aberta da ureia em superfície.
Perguntas frequentes
Quanto de chuva precisa cair depois da ureia?
As fontes abertas não dão um número em milímetros. O que elas mostram é que a chuva nos primeiros cinco dias foi o principal fator de redução da perda no milho de verão (Viero et al., 2014) e que, na cana, dias de chuva logo depois da adubação deram a menor perda, de 1% (Cantarella et al., 2008). A calculadora usa 15 mm como premissa, editável. Garoa e orvalho não contam: dissolvem a ureia sem levá-la para dentro do solo e podem até aumentar a perda.
Por que a perda é tão maior no café?
No ensaio de Lavras (MG), a ureia em superfície perdeu de 22% a 43% do N por aplicação, 31% em média no 1º ano e 38% no 2º (EPAMIG, 2018). As perdas foram maiores com calor, umidade do ar alta e pouca chuva; no Espírito Santo, a pouca chuva e o calor das regiões de conilon também favorecem a perda (Rodrigues et al., 2012). Nos grãos anuais de verão no Paraná e em São Paulo, a perda ficou entre 11% e 18%.
Vale a pena pagar mais pela ureia com inibidor de urease?
Depende do tempo e do preço. O inibidor reduziu a perda de 15% a 78% na cana (Cantarella et al., 2008), cerca da metade ou mais no milho (Viero et al., 2014) e de 32% a 62% no café (EPAMIG, 2018), mas protege menos quando a chuva demora 10 a 15 dias ou mais. A calculadora mostra o preço de empate: até quanto vale pagar pelo kg de N da ureia com inibidor nas condições que você marcou. No exemplo do milho sem chuva, o empate é de R$ 7,04 por kg de N.
Misturar ureia com sulfato de amônio diminui a perda?
No ensaio de São Paulo, não: a mistura perdeu 18% e 15% do N, quase o mesmo que a ureia pura (18% e 14%) (Faria et al., 2013). O sulfato de amônio sozinho perdeu cerca de 1%. Na calculadora, a mistura conta como ureia na parte do N que vem dela.
Faz diferença jogar a ureia de manhã ou à tarde?
Nos ensaios do Paraná o efeito não foi constante: no trigo de 2010, a aplicação da tarde perdeu 5,4% e a da manhã menos de 2%; no milho, a da manhã perdeu um pouco mais (13,2% contra 12,2%, e 13,5% contra 10,8%) (Viero et al., 2014). Por isso a hora não entra na conta.
Incorporar a ureia resolve?
Reduz muito. Trabalho citado pela Embrapa Milho e Sorgo mediu menos de 10% de perda com a ureia incorporada a 7,5 cm, contra 60% em superfície, e no café a ureia dissolvida em água perdeu 4,6% contra 31,2% (EPAMIG, 2018). Sob irrigação por aspersão, ureia em superfície e incorporada deram a mesma produção de milho (Coelho et al., 1992), porque a água já leva a ureia para dentro do solo. No plantio direto, incorporar mexe na palhada e tem custo e janela: a calculadora diz até quanto a operação compensa só pela perda evitada.
Fontes
- Viero, F.; Bayer, C.; Fontoura, S. M. V.; Moraes, R. P. de. Ammonia volatilization from nitrogen fertilizers in no-till wheat and maize in southern Brazil. Revista Brasileira de Ciência do Solo, 2014: perdas da ureia, da ureia com inibidor (NBPT), do sulfato e do nitrato de amônio no milho (150 kg de N/ha) e no trigo (50 kg de N/ha) em Guarapuava (PR); chuva nos primeiros 5 dias; temperatura como fator de maior peso; manhã e tarde. scielo.br
- Faria, L. A.; Nascimento, C. A. C.; Vitti, G. C.; Luz, P. H. C.; Guedes, E. M. S. Loss of ammonia from nitrogen fertilizers applied to maize and soybean straw. Revista Brasileira de Ciência do Solo, v. 37, n. 4, p. 969-975, 2013: perdas por fonte sobre palha de milho e de soja em Pirassununga (SP), perda concentrada nos 4 primeiros dias e a mistura de sulfato de amônio com ureia. redalyc.org
- Cantarella, H.; Trivelin, P. C. O.; Contin, T. L. M.; Dias, F. L. F.; Rossetto, R.; Marcelino, R.; Coimbra, R. B.; Quaggio, J. A. Ammonia volatilisation from urease inhibitor-treated urea applied to sugarcane trash blankets. Scientia Agricola, v. 65, n. 4, p. 397-401, 2008: perda da ureia de 1% a 25% em sete canaviais sobre palha, redução de 15% a 78% com o inibidor e menor proteção com chuva depois de 10 a 15 dias. revistas.usp.br
- Guimarães, P. T. G.; Dias, K. G. de L.; Oliveira, C. H. C. de; Dominghetti, A. W. (EPAMIG). Fertilizantes de liberação lenta na cultura do cafeeiro. Circular Técnica 271, abr. 2018: perdas da ureia (31,2%; 22,2% a 43,2%), da ureia com inibidor, do nitrato e do sulfato de amônio e da ureia dissolvida em água, em Lavras (MG). livrariaepamig.com.br
- Rodrigues, J. O.; Monte, J. A.; Oliosi, G.; Dias, M. A.; Partelli, F. L.; Pires, F. R.; Espindula, M. C. (Embrapa Rondônia). Perdas por volatilização de diferentes adubos nitrogenados aplicados no cafeeiro conilon. FERTBIO 2012: ureia com 45% de N e o efeito do calor e da pouca chuva no conilon. alice.cnptia.embrapa.br
- Coelho, A. M.; França, G. E.; Bahia Filho, A. F. C.; Guedes, G. A. A. (Embrapa Milho e Sorgo). Doses e métodos de aplicação de fertilizantes nitrogenados na cultura do milho sob irrigação. Revista Brasileira de Ciência do Solo, v. 16, p. 61-67, 1992: ureia em superfície e incorporada com a mesma produção sob aspersão, e a perda da ureia incorporada a 7,5 cm citada de Rao e Batra (1981). alice.cnptia.embrapa.br
- Preço de referência de cada cultura (equivalente da perda em produto): Cepea e Consecana-SP, nas datas indicadas. Detalhes e links de cada número em Dados de referência das culturas, do Conta da Safra.